Quando a história deixou de ser distante e se sentou à minha mesa

Viajar pela Arábia Saudita sendo mulher me trouxe inúmeras reflexões..

viajante brasileira Paula Livv no deserto do End of the World em Riad, Arábia Saudita durante uma viagem

Até 2018, o país era o único no mundo a proibir mulheres de obter uma carteira de motorista. Isso me fez pensar: quantas mulheres tiveram que lutar por esse direito para que, hoje, eu pudesse dirigir aqui?

Mas as coincidências da vida vão além. Em um belo dia, enquanto jantava com meu namorado em AlUla, na varanda aberta de um restaurante libanês, conhecemos um senhor muito simpático que se juntou a nós no jantar. Ele logo nos chamou a atenção, não apenas por ser um dos poucos sauditas que encontramos na viagem com um inglês impecável, mas também por não usar as vestimentas tradicionais do país.

Entre uma conversa e outra, chegamos ao tema do governo saudita, frequentemente criticado por sua postura opressora, especialmente no que diz respeito aos direitos das mulheres.

Criei coragem e perguntei o que ele pensava sobre o governo. Foi então que ele nos contou que sua filha havia sido presa anos atrás por ser uma das maiores vozes ativistas pelo direito de dirigir das mulheres sauditas. Parte da sua família vive exilada no exterior.

Para contextualizar: não estamos falando de um passado distante, mas de um capítulo da história que ainda está sendo escrito. Sua filha – Loujain al-Hathloul – tem a minha idade, nasceu em 1989 e, há apenas cinco anos, foi presa e torturada por lutar pelo direitos das mulheres sauditas.

Fiquei arrepiada. Porque as coincidências não pararam por aí – Eu já conhecia essa história – Tinha lido sobre ela em um livro1 sobre MBS, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, onde sua filha era citada como uma ativista que lutava pelo direito de dirigir e que, mesmo após se exilar, foi sequestrada e levada de volta contra sua vontade.

Eu não podia acreditar que estava diante do pai dela, sentado ali, bem na minha frente. Uma história que parecia tão distante agora estava diante de meus olhos, e eu não podia ignorá-la.

Perguntei como ele estava lidando com a situação e como sua filha estava agora. Ele respondeu que ela estava livre, mas nem ele, nem ela, nem sua esposa podem sair do país. Ele tem outras duas filhas que moram na Bélgica, mas elas não podem visitá-lo, pois, se o fizerem, talvez nunca mais possam sair da Arábia Saudita.

O mais impressionante é que, em nenhum momento, ele se mostrou triste ou melancólico. Creio que, para ele, o pior já passou, e agora ele simplesmente segue sua vida, viajando dentro do único país que tem permissão para conhecer.

Essa conversa me marcou profundamente. Nunca vou esquecê-la.

Eu poderia dizer que a Arábia Saudita é o pior lugar do mundo para ser mulher ou desencorajá-la(o) a visitar o país, mas estaria mentindo. Fiquei encantada com a hospitalidade do povo, a beleza das paisagens e a riqueza histórica e cultural que há para se descobrir. Na verdade, recomendo a qualquer um que tenha curiosidade e oportunidade de conhecer.

E quanto a ser mulher? Não estamos verdadeiramente seguras em nenhum lugar. Nossos direitos são sempre os primeiros a serem violados quando há abuso de poder.

Sei que há países onde a condição das mulheres é melhor e outros onde é pior, e meu maior desejo é que todas as mulheres sejam tratadas com respeito e dignidade. Como viajante, busco conhecer culturas e lugares ao redor do mundo sem julgamentos prévios, ouvindo o que as pessoas locais têm a dizer sobre suas próprias realidades. E, em situações como essa, não me vejo em posição de julgar – me deixo ser ouvinte.

Sobre o senhor que conheci naquele jantar, quando mencionei que muitos ocidentais têm uma visão crítica e preconceituosa da Arábia Saudita e de como o país trata as mulheres, ele se ofendeu e não hesitou em responder:

“Graças a mulheres como minha filha, estamos caminhando para um lugar melhor.”

E é por essas e outras que eu amo viajar. 🧡

PS: Se quiserem saber mais sobre a ativista Loujain al-Hathloul, podem ler seu artigo na Wikipédia (em inglês): https://en.wikipedia.org/wiki/Loujain_al-Hathloul.

Seu pai também nos indicou um livro escrito por sua irmã, que vive exilada na Bélgica. O título em inglês é Loujain Dreams of Sunflowers. (ao lado) 😊

 Bora viajar? 🥰

O livro que me li e referi no texto é o “Blood and Oil – Mohammed Bin Salman’s Ruthless Quest for Global Power” dos autores Bradley Hope, Justin Scheck, 2020. Excelente leitura para que gosta de temas de geopolíticas atuais.

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